Breve Análise da Taxa de Juros de Longo-Prazo Influenciada pelo Cenário Político-Criminal


Resumo


A taxa de juros de longo-prazo de uma economia é determinada por uma série de aspectos, sendo pertinentes a eles um lado estritamente técnico e outro político.

Dentro dos aspectos técnicos estão os fundamentos da economia e sua condução pela autoridade econômica. Pelos aspectos políticos estão a confluência de forças necessárias para a consecução dos objetivos econômicos de longo-prazo e, também, a condução pela autoridade econômica.

Através da autoridade econômica há uma clara intersecção entre a técnica e a política.

Em um ambiente turbulento politicamente é praticamente impossível não haver contágio para o lado técnico. Evidentemente, o inverso também vale.

Hoje, no Brasil, o aspecto político influencia em muito as expectativas dos agentes em relação ao desenvolvimento econômico do País. Os acontecimentos da primeira semana de março deste ano reforçaram esta percepção e mostraram que sem uma solução para a questão política, as dificuldades econômicas permanecerão por mais tempo que o necessário.


Taxa de Juros de Longo-Prazo e o Cenário Político-Criminal


A primeira semana deste março de 2016 foi particularmente interessante para um olhar sobre os juros de longo-prazo da economia brasileira. Um dos aspectos importantes veio da decisão do Copom pela manutenção da Selic em 14,25% ao ano, com um placar de 6 votos pela manutenção e 2 pela alta dos juros em 50 pontos-base. O outro está ligado ao deslocamento para baixo da curva de juros e do risco associado à economia brasileira no longo-prazo.

A decisão do Comitê de Política Monetária divulgada na quarta-feira trouxe um aspecto importante à análise da decisão. Pela terceira vez consecutiva, os membros do Copom Sidnei Corrêa Marques (Diretor de Organização do Sistema Financeiro) e Tony Volpon (Diretor de Assuntos Internacionais) votaram pela elevação da Selic em 50 pontos-base. São raros os momentos em que o Copom se mantém “dividido” por períodos mais longos.

Em geral, a divisão de opiniões dentro do Comitê precede uma mudança nos destinos da política monetária. Nos casos em que não ocorre a mudança, normalmente, o Comitê volta rapidamente a ter unanimidade.

No caso atual, em novembro Volpon e Corrêa Marques foram os 2 votos vencidos favoráveis à elevação da Selic. Naquele momento, a falta de unanimidade pendia, juntos com a ineficiência da política monetária na condução do IPCA para o centro da Meta, mesmo que no longo-prazo, para uma possível alta da taxa básica no curto-prazo.

Com a queda do Ministro da Fazenda Joaquim Levy e a ascensão de Nelson Barbosa, a reunião do Copom encerrada em 20 de janeiro trouxe mais uma vez a manutenção da Selic, ainda com os votos vencidos de Volpon e Corrêa Marques, e com o prognóstico de que a taxa básica não subiria no curto-prazo.

Tanto esta era a percepção que os DI’s futuros recuaram fortemente a partir desta data. Os vértices para janeiro dos anos seguintes, que vinham subindo, iniciaram uma forte tendência de queda, como pode-se notar no gráfico abaixo.

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Fonte: BMF&Bovespa; Preparação: Tailor Consulting

O recado foi entendido pelo mercado, que ajustou suas posições. O que se esperaria é que na reunião seguinte do Copom, naturalmente, o resultado seria de uma unanimidade ou uma “redução” da diferença de orientação. Vale lembrar, que Volpon e Corrêa Marques não têm votado por uma alta de 25 pontos-base, mas por 50.

Mas, o que se viu foi a manutenção de suas opiniões. Isso mostra que permanece a diferença de orientação, de forma bastante aguda, dentro do Comitê, a despeito do comportamento do mercado e da equipe econômica.

Na semana que passou, mais uma vez os DI’s recuaram, porém muito mais influenciados pelo noticiário político-criminal do que pela reunião do Copom. No gráfico abaixo, é possível notar que no dia 02 de março, os DI’s fecharam em ligeira alta para os vértices de Jan/17 e Jan/18, e em estabilidade para Jan/19. Para Jan/20 e Jan/21 houve queda.

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Fonte: BMF&Bovespa; Preparação: Tailor Consulting

Ou seja, apesar de cristalizada a percepção de que os juros não subirão mais, havia dúvidas persistentes sobre a curva de juros no longo-prazo e sobre condução da política monetária. A queda aguda dos DI’s no longo-prazo só veio a partir do noticiário político-criminal que dominou o mercado ao fim da semana:

201603_ETTJ-DI

Fonte: BMF&Bovespa; Preparação: Tailor Consulting

Não há como interpretar este comportamento da curva de forma diferente da mudança de expectativas dos agentes em relação ao futuro econômico, o qual está intimamente ligado a quem deveria conduzi-lo: a percepção é de que com uma mudança institucional os riscos diminuem.

De fato, o CDS do Brasil, que vinha operando acima dos 450 pontos-base, recuou mais de 50 pontos nos últimos 30 dias. Mas, entre quinta e sexta-feira, o CDS recuou mais de 30 pontos-base. Foi o CDS que mais diminuiu na última semana.

No mercado brasileiro, o comportamento é o mesmo: ao se descontar da Pré DI o spread sobre o IPCA da DI x IPCA, nota-se que a curva do IPCA implícito adicionado de uma componente de risco tem um deslocamento pronunciado para baixo a partir de quinta-feira, dia 03, sendo considerável na sexta-feira, dia 04 de março.

201603_IPCA-Impl_Risco

Fonte: BMF&Bovespa; Preparação: Tailor Consulting

De fato, com o PIB encolhendo 3,8% em 2015, como demonstrou o IBGE na quinta-feira, não haveria por que o mercado reagir com euforia, uma vez que o resultado veio dentro das previsões – entre os 32 economistas consultados pela Bloomberg, por exemplo, a mediana ficou em -3,9%.

Ou seja, ainda que o Brasil siga enfrentando desafios econômicos gigantescos para promover os ajustes necessários para que tanto a inflação possa voltar ao centro da Meta como o crescimento estruturado possa ser retomado, o cenário político-criminal tem influenciado mais do que o técnico.


Conclusão


Naturalmente, a política de um país influencia a economia, ainda mais naqueles lugares em que a importância do poder central para o desenvolvimento econômico se mostra muito preponderante. No Brasil, tecnicamente, a alta carga de impostos, o orçamento muito engessado, a alta taxa de juros, a baixa capacidade de poupança e o baixo investimento fazem com que a atuação do Governo seja extremamente importante. Pelo lado político, no Brasil, as alianças no legislativo são fundamentais para a consecução de estratégias, sejam econômicas ou não. Assim, o noticiário político tem uma preponderância ainda maior. E se o cenário político passa a ser dominado por temas criminais, o impacto econômico sofre ainda mais, sendo abalado pela confiança do empresariado local, dos consumidores e dos investidores, locais e internacionais.

Apenas uma solução política tem, hoje, capacidade de resolver as questões econômicas do Brasil.


Autor: Diego Gauto


Sócio-fundador da Tailor Consulting, é economista formado pela FEA-USP e tem 15 anos de atuação no mercado financeiro e de capitais do Brasil. É membro-diretor do Departamento de Pesquisas Econômicas da FIESP.

 

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